E ele raiou em uma manhã de céu nublado de tristezas e saudades.
Confusa, não deixei de reparar no melhor sorriso que já vestiram diante de mim e nas sardinhas charmosas do moço de boné vermelho e calças largadas, mas não me esforcei pra saber de sua origem reluzente.
Que fosse um cometa iluminado me arrebatando da escuridão por segundos, uma chama refletida em meio às sombras... mas que passasse. Porque eu ainda não largaria a velha dor por tão pouco. Passou. Mas voltou na manhã seguinte. Sorriu de longe e eu fechei os olhos pra não ofuscar meu breu. Não era justo assistir aqueles olhos amendoados do menino canela se espremerem pra dar espaço a imensidão do sorriso abatedor de corações. Virei o rosto. Passou. Mas voltou na manhã seguinte. E veio pra perto pra só então sorrir. Sentada num degrau de escada, devolvi um mostrar de dentes sem graça e desconcertado e desviei o olhar em outra direção. O boné vermelho não esperou convites pra sentar ao meu lado e com jeito moleque puxar assunto. E aí morena? Perguntou despretensiosamente. Precisei olhar em seus olhos pra questionar a ousadia. E ali, face a face, separados por centímetros de distância, ele sorriu. E eu também. Como se já não fosse muito injusto destruir desse modo todos os meus anticorpos, o moço de sardinhas irresistíveis me fez rir durante cada segundo de conversa e despediu-se com um beijo de amêndoas que escorreram dos olhos para a boca e pousaram em minha testa. Passou. E voltou na manhã seguinte. Me levou pra debaixo da árvore de galhos secos com paisagem bonita e disse palavras de um futuro bom, encheu meus dias de sonhos, me deu buquê de rosas de guardanapo depois de um banquete de silêncios, acariciou minha mão, deu-me declarações com sorrisos apaixonados e juras com olhos de amêndoas, enquanto fez de mim sua estrela . Passou. E voltou na manhã seguinte. Com sardas molhadas de saudades, com as notas que embalaram nossos planos, com boné vermelho estendido de perdões, com lealdade e querer bem. Com sorrisos que celebram o recomeço, e olhos amendoados sendo sinceros. Passou. E voltou na manhã seguinte. Procurou por sua estrela, e brilhei pra ele espelhando a luz que ele mesmo me deu. Com ombros que se suportam, com cumplicidade, com a certeza do que existe pra sempre, com sorriso de conforto e olhos amendoados de esperança. Passou. Mas minhas previsões classificaram o astro errado. Passou e não era cometa. Passou mas voltará porque é Sol. Cotidiano, Insistente, Pontual. Às vezes escondido em nuvens, mas sem deixar de raiar quando preciso. Às vezes há anos luz de distância, mas sem deixar de se fazer sentir na pele, no brilho, no calor. Passou. Mas será sempre o Sol da minha estrela, e sentada no degrau da escada esperarei pela nossa manhã seguinte.
3 pedaços...:
"Que fosse um cometa iluminado me arrebatando da escuridão por segundos, uma chama refletida em meio às sombras... mas que passasse. Porque eu ainda não largaria a velha dor por tão pouco."
Nossa Juh...
Agora fui eu quem fiquei despedaçado...
Despedaçado, porém feliz em ver como seu texto está fluindo aqui, sensível,humano, com um padrão estilístico claro. A poesia mora aqui.
Parabéns.
Eu de minha parte, sempre fazendo enormes hiatos,retorno e estou convidando os amigos para compartilhar o que talvez seja a última página do spleen-rosa-chumbo,dessa vez muito pouco rosa e muitissimo chumbo. Traga uns lenços, uma pipoca, uma vitamina k(para cicatrizar),um estojo de primeiros socorros,um estõmago forte e um coração à prova de bala.
Grande abraço
gostei muito do teu texto.
abraço.
Muito obrigado pelo comentário! De verdade.:)
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