Alguns passos...
Acendi a luz...
Havia algumas teias de aranha no ar
forte cheiro de gaveta empoeirada...
Quarto triste e solitário..
seria uma cena depressiva,
se não me conhecesse o suficiente pra saber
que mesmo em meio as trevas e o frio do cômodo insalubre
eu não deixaria o despedaçar do meu coração provocar paralisia...
Eu sabia que doía, mas isso não me consumia...
e nisso havia muita diferença.
Apaguei a luz...
Não havia nada pra mim ali, era um quarto fechado, abandonado...
um poço em desuso, abrigo de morcegos (
eu teria dito fantasmas se acreditasse neles)
no escuro, parada, tudo parecia muito mais saudoso
era como se eu finalmente fechasse os olhos e me obrigasse a ver
a causa, a consequencia, o antes, o depois, o ontem, o agora o que foi e o que nunca mais será...
senti os olhos molharem e trinquei os dentes, eu prometera não derramar mais lagrimas
era só um quarto escuro...o nó na garganta estabilizou como resposta aos meus esforços sobrenaturais de comandar a mente...
no meu mundo, isso poderia ser denominado tortura
Fechei a porta e o tudo que ficava atrás dela.
Eu era quase uma fortaleza, superava as quedas com facilidade e o rosto em frente
ou pelo menos era assim que todos me viam...
mas eu sempre tive o quarto pra ser inteira ali, pra chorar, rir, sonhar, lembrar, amar
sem esconder as fraquezas nem revelar meus super - poderes...
Não me julgue.
Entenda que isso nunca foi uma vida dupla, uma hipocrisia
era só o meu "infinito particular", o meu esconderijo secreto.
balançei a cabeça
como se isso pudesse espantar o turbilhão de pensamentos
que me deixava tonta ainda parada na porta do quarto...
Saí...
Segui o rumo prático do mundo lá fora.
ocupei a mente pra não ter tempo de me encontrar,
de sentir cada centímetro da minha pele
e ouvir cada batida do meu coração..
Não posso negar que em poucas brechas de tempo livre e cabelos ao vento....
eu pensei no quarto...
não exatamente em mim, era perigoso demais.
mas no quarto...no meu refúgio,no meu palácio
Lembrei de cada cada raio de sol que senti em minha pele sob aquela janela
aquecendo meus pulmões e impulsionando minhas emoções
multiplicando-as pra preencher cada espaço do cômodo já apertado...
Sim! e como aquilo parecia apertado...
entretanto, nunca sufocante, NUNCA!
era apertado de coisas que me abraçavam, me ninavam...
me completavam...
Lembrei também de quantas estrelas observei ali,
me fazendo levitar e esfacelar as pequenas dores...
diluindo-as como chuva fina...
sofrer ali, a luz da minha lua de papel, era quase tão bom quanto sorrir ali.
estranho, eu sei...
mas eu não escondo que as lágrimas ali eram tão poéticas
que eu até as esperava com certa ansiedade...
Voltei dos devaneios, a nova imagem escura, fria e solitária
apagou as cores do meu filme doce...
ali não era mais o meu castelo de dores, sonhos e amores
pelo menos, não enquanto nada me despertasse
da letargia emocional que me abatia...
me resignei e continuei caminhando...
racionalmente,
eu teria a certeza de que eram só estações e tudo se resolveria
racionalmente....era dificil calar vulcões e conter erupções,
e nessas horas, vc nunca enxerga um palmo de futuro...
fiz o melhor que pude...
Silêncio longo....
Acordei hoje, chovia, fazia frio...
não tinham nuvens, sol, crianças brincando na rua...
era só mais um dia de inverno não inspirador
dia de reinados de silêncio...
ou não...
Tive pensamentos conexos sobre mim mesma ...
desci do ônibus 3 paradas antes para evitar o balanço
e andar na chuva pensando com clareza e lentidão
não reprimi nenhum dos meus pensamentos bobos
Revivi sozinha as cenas agora patéticas de claustro
piruetei leve sob toldos e beirais pingando gotas felizes
e se vc me perguntar porque? eu nem saberia te explicar...
devia haver um sol brilhante e um céu límpido no além da atmosfera
algo por trás da camada espessa de algodão encharcado
me atingia de uma forma tão simples e tão especial...
Ri alto das saudades, reconheci minhas inseguranças
e não evitei nenhuma delas... eu não precisava fugir.
voltei ao velho hábito de repassar tudo em minha mente,
de discutir sozinha comigo mesma,
de criar diálogos interiores encantadoramente divertidos,
de planejar os proximos cinco minutos...
Fui eu mesma...
e me senti viva....inteira...de novo
Grandes dias (mesmo por coisas pequenas)
merecem grandes comemorações...
estou abrindo as janelas do quarto escuro...
não do modo mais poético, mas sob o ângulo mais real...
Entre,
puxe uma cadeira ...
e se sinta a vontade no meu refúgio também.
Depois da luz, virá o calor...
Eu prometo.